CEO da Copa do Mundo de Esports rebate críticas sobre Arábia Saudita


Ralf Reichert fala do investimento milionário do país do Oriente Médio para se tornar uma potência nos esportes eletrônicos, diversificar economia e limpar imagem internacional Com a Arábia Saudita investindo milhões de dólares nos esportes eletrônicos como parte do plano de diversificar a economia, a Copa do Mundo de Esports trabalhará para “dar aos visitantes de todo o mundo a melhor experiência possível”, de acordo o CEO do evento, o alemão Ralf Reichert. Todos são bem-vindos, desde que respeitem a cultura local em público, conforme o executivo que lidera a chamada Esports World Cup (EWC).
— Todos são bem-vindos, e nós podemos garantir a segurança de qualquer pessoa que publicamente siga a cultura local — disse Ralf, em entrevista exclusiva ao blog, na qual falou sobre a realização do evento com maior premiação da história dos esports e os ambiciosos planos sauditas no mercado de games competitivos.
CEO da EWC diz que garante segurança de quem seguir cultura da Arábia Saudita
A Arábia Saudita é uma monarquia absolutista islâmica, cujo regime ditatorial, acusado de violações de direitos humanos, é liderado pelo príncipe herdeiro Mohammad bin Salman.
No país, localizado no Oriente Médio, a liberdade de expressão é restrita, a homossexualidade é criminalizada, com punições que chegam a pena de morte a quem pratica atos sexuais com pessoa do mesmo sexo, e as mulheres têm menos direitos em relação aos homens. Há ainda perseguição a cristãos e relatos de prisões, torturas e execuções de opositores, ativistas e jornalistas.
— Todos são bem-vindos. Não temos qualquer problema com a religião ou a orientação sexual das pessoas que vêm para o país. A realidade no local é que você pode ser a pessoa que deseja, enquanto respeita a cultura e o público local, o que é normal em todos os países do mundo — defendeu o executivo.
— Há espaço para crescer e mudar? Absolutamente sim. Mas sou muito simplista nisso: se alguém investe tanto dinheiro em mudar a cultura e o funcionamento do entretenimento no país, com o turismo sendo o claro objetivo, precisa ter certeza de que todos que vêm são bem-vindos e que você realmente tem uma sociedade aberta e garantir que as pessoas tenham uma boa experiência. Caso contrário, não irão voltar. O melhor a se fazer é vir e experimentar, e as pessoas terão a sua experiência. O tempo dirá se o que acabei de falar é a verdade absoluta.
CEO da Copa do Mundo de Esports, Ralf Reichert, no lançamento do evento, no The New Global Sport Conference, em outubro de 2023
Divulgação
Um dos aspectos que, admite Ralf, pode ser melhorado é a participação feminina. Tanto é que, das competições em 19 modalidades a serem disputadas na Copa do Mundo de Esports, somente uma será destinada às mulheres, a MLBB Women’s Invitational, de Mobile Legends: Bang Bang.
— Começamos com MLBB neste ano. Há absolutamente planos para expandir isso na frente. Se você olhar para a maioria dos esportes, na verdade, é ao contrário da percepção pública usada para implicar que os esportes no Reino não são abertos para as mulheres. Na verdade, é o oposto. Se você olhar para a seleção saudita de futebol, a masculina e a feminina têm o mesmo patamar de salários.
De acordo com a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, apesar de modernizações recentes, as mulheres na Arábia Saudita ainda sofrem discriminação e são subjulgadas aos homens. Há no país uma legislação que prevê a necessidade de mulheres obterem autorização de tutores homens para certas atividades e tarefas, como se casar. Relatório do Fórum Econômico Mundial a respeito da desigualdade entre gêneros coloca a Arábia Saudita em 131º lugar em um ranking de 146 países.
CEO da EWC nega que esports são usados para limpar imagem da Arábia Saudita
Sportswashing
Cofundador da SK Gaming e da ESL, Ralf assumiu como CEO da Esports World Cup Foundation (EWCF) em outubro de 2023 com a missão de comandar a Copa do Mundo, que anunciou, para 2024, uma premiação total de US$ 60 milhões (equivalentes a cerca de R$ 300 milhões na cotação atual), a maior na história dos esports. O evento será realizado de 3 de julho a 25 de agosto, na capital saudita de Riade.
Porta-vozes da Arábia Saudita já disseram publicamente que os esports integram o plano para diversificação da economia e incentivo ao turismo, mas Ralf rechaça a ideia de que isso se trate de sportswatching – a utilização dos esportes para limpar a imagem do país perante a comunidade internacional.
— Não entendo o conceito de sportswashing, porque o que implica é que você está investindo dinheiro para esconder outra coisa. No minuto em que você faz isso e as pessoas reclamam, torna a tese original inútil, porque você não está escondendo nada — argumentou o CEO.
Ele complementou que, no plano em que está envolvido, os objetivos são levar novo entretenimento para a população saudita, atrair turistas, de modo a diversificar a economia, hoje muito dependente do petróleo, e incentivar o crescimento do país.
— A Copa do Mundo dos Esports será algo que impulsionará o turismo e que irá dar aos visitantes de todo o mundo a melhor experiência possível. Se você não fazer isso, eles não voltarão e, se as pessoas não voltarem, você nunca poderá crescer na escala do plano original.
CEO da EWC fala de investimento da Arábia Saudita para se tornar potência nos esports
Poder do dinheiro
Questionado se o dinheiro – com uma premiação de US$ 60 milhões na Copa do Mundo de Esports – é o principal atrativo para tornar a Arábia Saudita uma potência, Ralf respondeu que “sim e não”.
— Em uma época em que algumas pessoas duvidam da indústria [de esports], esta é uma declaração clara de que acreditamos e estamos dispostos a investir nela. Esta é a única coisa que estamos fazendo? Não, porque se você olhar a escala do que estamos fazendo, os US$ 60 milhões de premiação são apenas uma pequena fração do investimento.
— Os jogadores são o coração do que queremos fazer, e nós desejamos dar a eles a oportunidade de viverem como atletas profissionais. E uma premiação que muda vidas é peça importante dessa equação. Mas, ao mesmo tempo, é apenas uma peça do que estamos fazendo, porque não se trata só dos jogadores. Isso é sobre os fãs, as desenvolvedoras e sobre a população local que irá comparecer à Copa do Mundo de Esports para ter o melhor entretenimento possível, porque, no final das contas, todo esporte está lá para entreter as pessoas.
Em uma iniciativa anunciada depois da realização da entrevista, a EWCF criou um programa para repasse de dinheiro, com valores na casa dos seis dígitos, para 30 organizações de esports. LOUD e FURIA são as brasileiras participantes do projeto.
CEO da Copa do Mundo de Esports, Ralf Reichert, em painel do World Football Summit, em 2022
Reprodução/YouTube
Desde que passou a investir nos esports, a Arábia Saudita já comprou a ESL e a FACEIT, realizou duas edições do Gamers8 com premiações milionárias, recebeu o Campeonato Mundial de FIFA e iniciou a construção de uma cidade dedicada aos games.
Segundo Ralf, o plano é que a atuação da Arábia Saudita seja complementar no ecossistema, e não fazer do país a maior potência neste mercado.
— Este ainda é um esporte incrivelmente jovem, e o que a Foundation está fazendo especificamente com a Copa do Mundo é adicionar. É totalmente complementar ao ecossistema. Se você quer vender a alguém um contrato de celular, como mundo tem um, você tem que tirá-lo de outra pessoa. Sempre será naturalmente um mercado muito competitivo. Mas os esports são, para os próximos 20 anos, uma indústria de crescimento muito claro. Obviamente você busca eficiência, mas o foco primário do pensamento, da estratégia e da execução pode ser sobre mais oportunidades para crescer a indústria. E é por isso que estou aqui e incrivelmente animado todos os dias para fazer parte dessa jornada.
Investimento em tempos de crise
Com quase três décadas de atuação nos esports, já que ajudou a fundar a SK em 1997 e a ESL em 2000, Ralf disse que não se assusta com a crise pela qual o mercado passa no pós-pandemia, relembrando outras situações de depressão anteriores.
— Se você olhar para qualquer métrica de quantas pessoas jogam, é uma curva muito linear subindo, com obviamente a covid tendo um efeito acelerador. Os números e o engajamento estão em crescimento constante. Nós vemos os esports como algo que não tem uma explosão e depois cai, mas algo que continua a crescer, porque é saudável.
— Assim como em qualquer outra indústria, passa por curvas de ascensão e depressão. Ao que você está se referindo agora, em que há empresas em dificuldades comerciais, é algo que eu já vi duas vezes antes. Não é novo — disse Ralf, citando crises em 2001/2002 e 2008/2009.
— A posição privilegiada de ter visto isso antes não cria nenhum medo ou nervosismo em mim. O interesse em jogar e com as gerações novas crescendo com o videogame como o entretenimento primário, não há outro cenário além de que a indústria continuará a crescer.
Foi nesse contexto em que, segundo Ralf, a Arábia Saudita resolveu investir nos esports, com a aquisição da ESL e da FACEIT como um dos primeiros passos.
— Eles olham mais para a oportunidade e menos para o desafio que os esports têm e sempre terão.
Jogos da Riot Games
Uma das primeiras ofensivas sauditas sobre os esports ocorreu em 2020, quando a Neom, uma cidade futurista erguida no deserto da Arábia Saudita, tornou-se patrocinadora da LEC, a liga europeia de League of Legends, e da BLAST, uma tradicional organizadora de campeonatos.
Fãs reagiram com indignação e casters da Riot Games detonaram a decisão, já que a LEC é reconhecida por apoiar a causa LGBTQIA+.
Diante dos protestos, a LEC e a BLAST recuaram e desistiram do patrocínio da Neom, cuja construção, orçada em US$ 500 bilhões (R$ 2,5 trilhões), é liderada pela Arábia Saudita. Os recuos enfureceram o CEO da Neom, Nadhmi al-Nasr, que, em uma reunião de emergência, ameaçou atirar em funcionário, segundo uma reportagem do jornal norte-americano The Wall Street Journal publicada em 2022.
Por isso, depois de duas edições da Gamers8 sem jogos da Riot, chamou atenção o anúncio de que a Copa do Mundo dos Esports contará com torneios de LoL e Teamfight Tactics (TFT). Em comunicado, a desenvolvedora norte-americana tentou se desvencilhar da organização, escrevendo que o campeonato não é “patrocinado, endossado ou administrado” pela empresa.
“Estamos felizes com a Riot, mas também por todos os jogos”, diz CEO da EWC
Perguntado sobre a importância da presença dos jogos da Riot no evento, Ralf adotou discurso político, dizendo estar feliz com a participação de todas as desenvolvedoras de games. Ele não quis responder se a negociação com a Riot envolveu discussões sobre as violações de direitos humanos da Arábia Saudita.
— Nosso trabalho é construir o maior torneio do mundo em todos os games. Nós adoramos expandir a lista de títulos, porque o que queremos é criar o máximo de oportunidades para os jogadores ganharem a vida, e a única narrativa da Copa do Mundo de Esports é dar a oportunidade para os clubes para coroar qual é o melhor entre todos os jogos, além de somar à sustentabilidade do ecossistema.
Competição entre clubes
É que, dos US$ 60 milhões, US$ 20 milhões (R$ 100 milhões) serão destinados às 16 organizações que tiverem os melhores desempenhos considerando os campeonatos das diferentes modalidades.
— O esporte tradicional é organizado hiperlocalmente por razões logísticas. Minha experiência como jogador de futebol é jogar contra pessoas de 20 quilômetros ao redor de mim. Você precisa fisicamente viajar e estar fisicamente para jogar. Os esports cresceram de outra maneira. Você joga contra pessoas de outros países na maioria do tempo. O princípio orientador é a linguagem. Por isso os esports se desenvolveram mais em torno de idioma do que de barreiras de países.
— Este é o modelo predominante e de sucesso nos esports. A Copa do Mundo de Esports leva a indústria adiante. Foi desenhada para pegar o que há de mais bem-sucedido, que são os clubes, levar isso para o próximo nível e oferecer a esses clubes mais oportunidades.
CEO explica por que Copa do Mundo de Esports terá clubes, e não seleções
Copa do Mundo em outras sedes
Bancada pela Arábia Saudita, a Copa do Mundo continuará sendo realizada lá no futuro próximo, segundo o CEO.
— Para o futuro previsível, e anunciamos isso, a Copa do Mundo está planejada para acontecer na Arábia Saudita. Por quê? Porque o país está investindo como em qualquer outro investimento de sede de grandes torneios e eventos globais de esportes tradicionais. Isso significa que vai acontecer lá para sempre? Não. Vamos ver como se desenvolve, como acontece e se outros países estão interessados em investir em um nível similar, com a visão semelhante. Absolutamente há uma abertura para repensar, mas, para o futuro previsível, está claramente dito para primeiro crescer a relevância e depois pensar em como expandir.
Arábia Saudita continuará sendo sede da EWC, segundo CEO
Público brasileiro
Na entrevista, Ralf ainda exaltou a importância dos brasileiros para a Copa do Mundo de Esports, como um dos principais públicos, em termos de número e engajamento, do mercado de esports.
— Como eu disse antes, muito das forças motoras dos esports e de sua popularidade é o idioma. O português do Brasil sendo uma das maiores línguas do mundo e o incrível fandom de fãs brasileiros trazem um impulsionamento altamente relevante, porque o Brasil tem, em um terceiro ponto, alguns dos melhores jogadores do mundo. É uma forte história de atletas bem-sucedidos, com um público-alvo muito relevante como espectador.

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Origem da Noticia
https://ge.globo.com/esports/blogs/por-dentro-dos-esports/post/2024/05/08/ceo-da-copa-do-mundo-de-esports-arabia-saudita.ghtml
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