‘Dinheiro não é tudo na vida’: produtor transforma região devastada em paraíso ambiental no ES


Com propriedade localizada no interior de Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo, o produtor Gilson Mansur se tornou um exemplo de consciência ambiental com práticas sustentáveis para a recuperação de nascentes, da fauna e flora da Mata Atlântica. Produtor compra área devastada e recupera Mata Atlântica na Região Serrana do ES
Plantar e colher ou cuidar e apreciar? Foi com essas perguntas que o produtor rural Gilson Mansur se deparou, em 1986, após adquirir uma propriedade no interior de Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo. Quase 40 anos depois da decisão, as consequências vieram. O plantio do café deu lugar à recuperação da Mata Atlântica, transformando a área devastada em um paraíso ambiental para a fauna e flora do estado.
Compartilhe no WhatsApp
Compartilhe no Telegram
“A fortuna que o homem deixa é o que ele lega para a humanidade. O que os meus netos diriam se eu viessem aqui e me vissem destruindo, plantando café, ganhando dinheiro? O dinheiro não é tudo na vida e o homem precisa entender isso”, disse o produtor.
Produtor rural Gilson Mansur recuperou área devastada e transformou em paraíso ambiental em Santa Teresa, no Espírito Santo.
Reprodução/TV Gazeta
De acordo com Gilson, a propriedade era desertificada, arenosa e estava totalmente devastada por causa de uma plantação de café quando foi adquirida. Também não havia água, o que, segundo o produtor, tornaria inviável qualquer plantação em pouco tempo.
Foi diante deste cenário que o produtor deixou de lado a aspiração de ser referência na plantação de café no Espírito Santo, estado com a maior produção da variedade conilon, para preservar o meio ambiente. A primeira ação foi justamente fechar uma estrada que passavam carros para recuperar a Mata Atlântica.
Propriedade de Gilson Mansur, em Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
Hoje o cenário é outro. Animais e árvores típicos da Mata Atlântica, como jaguatirica, macaco-bugio e marreco silvestres voltaram a habitar a propriedade. Além disso, nascentes que alimentam o Rio Bonito, Rio Timbuí e Rio Fundão foram recuperadas.
”Eu não tô plantando pra mim, eu tô plantando pra eles. Somente daqui a 50 anos essa floresta vai estar com água perenizada. Então, eu sei que não vou ver, mas é um trabalho que a gente tem que legar para as futuras gerações”, disse o produtor.
📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp
Nascentes foram recuperadas em propriedade de Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
Caçadores de água
Na aspiração de recuperar a mata nativa e as nascentes da propriedade, Gilson encontrou o apoio de alguns amigos nas décadas de 1980 e 1990, quando pouco se falava de consciência ambiental. Um deles foi o engenheiro agrônomo Fabrício Fardim, que trabalhava no Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf).
Grupo ‘Caçadores de Água’ realiza trabalha em prol da preservação ambiental em Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
De acordo com o engenheiro, bastava reflorestar a propriedade para que as nascentes que alimentavam o Rio Bonito e o Rio Timbuí, até então secas, voltassem a ter vida.
“Eu lembro que, na época, até para o Gilson conseguir fazer o projeto e conseguir mudas também de espécies nativas da Mata Atlântica teve um pouco de dificuldade. Mas ele persistiu e conseguiu recuperar a Mata Atlântica aqui na propriedade dele”, destacou.
Primeira nascente demorou 20 anos para ser recuperada
Gilson teve que exercitar a paciência para reflorestar a área devastada. Após 20 anos de cuidados com a propriedade, a primeira nascente foi recuperada. No local, os dois fizeram uma oração quando viram a água pela primeira vez.
“Rezamos, agradecemos e graças a Deus a água só está aumentando”, comemorou o produtor.
Primeira nascente recuperada na propriedade de Gilson Mansur, em Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
O cuidado não parou. Gilson canalizou as nascentes, fazendo com que o curso da água seguisse até o Rio Bonito, um dos afluentes do Rio Santa Maria, que, por sua vez, nasce em Santa Maria de Jetibá e abastece mais da metade da Grande Vitória (veja mapa abaixo).
Rio Bonito, um dos afluentes do Rio Santa Maria, que nasce em Santa Maria de Jetibá e abastece a Grande Vitória, no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
Exemplo se torna inspiração
A dedicação do produtor rural, que começou sozinho, influenciou outras pessoas positivamente. Gilson se tornou exemplo para um grupo de voluntários intitulado ‘Caçadores de Água’, qual trabalha de forma a combater o desmatamento.
Promotora do grupo, Vera Murta afirmou que os ‘caçadores’ utiliza o exemplo do produtor para inspirar outras pessoas.
Produtor Gilson Mansur teve dificuldade para conseguir mudas de plantas nativas da Mata Atlântica. Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
“A gente leva [este exemplo] para as palestras, onde falamos com infratores sobre meio ambiente. É uma forma de levar o modelo, o exemplo, então acrescenta muito”.
Outra participante do Caçadores de Água é o frei Anderson Teodoro, responsável pela pastoral universitária da região. Em parceria com o produtor, ele já plantou 500 mudas com os alunos da região.
Frei é um dos entusiastas da preservação ambiental na propriedade de Gilson Mansur, em Santa Teresa, no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
“Como é que eu vou amar o próximo e deixar um planeta sujo? Como é que eu vou amar o próximo e deixar um planeta poluído?”, refletiu o frei.
O religioso afirmou ainda que plantar não é só colocar uma árvore na terra, mas é você adquirir uma responsabilidade pelo planeta.
“Mas também não é só plantar e plantar. É descobrir como posso produzir menos lixo, como posso cuidar mais do planeta, como posso cuidar mais do ser humano ajudando na ecologia”, destacou.
Incentivo do governo
Mais de 7 mil mudas da propriedade de Gilson Mansur foram disponibilizadas pelo projeto Reflorestar do governo do Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
Quando mais verde se tornava a propriedade de Gilson, mas água brotava das nascentes da propriedade e mais apoio era recebido de todas as formas, inclusive do governo do Espírito Santo.
Por meio do programa Reflorestar, iniciativa coordenada pela Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama) e que tem o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) como agente técnico-financeiro, mais de 7 mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica foram plantadas na propriedade.
De acordo com o engenheiro agrônomo Fabrício Fardim, o produtor concentrou esforços na recuperação da mata ciliar, vegetação presente em espaços próximos a corpos da água para proteger as nascentes.
“Essa mata ciliar tem essa função justamente de proteger a água. Quando chegar água nela, vai chegar filtrada. A erosão não vai romper ali porque áreas de preservação permanente. A gente tem que encontrar meios para que o solo da nossa propriedade absorva essa água. Para isso, a gente usou aqui meios de preservação de floresta, de restauração, de cobertura florestal…”, explicou o engenheiro.
Dificuldade para construir represas
Para economizar água, o produtor Gilson Mansur fez represas em sua propriedade, localizada em Santa Teresa, no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
Gilson logo percebeu que seria importante não desperdiçar nem pouco da água que aparecia no sítio. Mas, em torno dos anos 2000, o produtor teve dificuldade para conseguir licença para construir as represas.
De acordo com Fardim, em 2006, a legislação para construção de barragens era muito mais rígida do que hoje.
“Naquele momento, nós não pudemos emitir a licença para ele, que sempre procurou fazer o projeto. Logo depois, a lei mudou e a gente pôde emitir a licença ambiental para o seu Gilson Mansur”, destacou.
O engenheiro agrônomo Aliamar Cardoso foi quem fez o projeto das barragens, seguindo todas as normas de segurança.
Representa precisa seguir normas técnicas do CREA-ES
Reprodução/TV Gazeta
“Primeiro, o profissional que vai elaborar o projeto tem que ser registrado no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES) . Assim, ele vai executar, acompanhar a obra do projeto, emitir as anotações de responsabilidade técnica para que você tenha segurança da obra e a maior quantidade de água possível. Isso a propriedade do Gilson tem”, destacou.
O engenheiro explicou ainda que o reflorestamento feito na propriedade de Santa Teresa, é responsável por fazer a recarga da caixa d’água do lençol freático.
“A água que bate aqui ela não escorre mais. A planta aproveita o que pode e o que conseguir vai alimentar o lençol freático, contribuindo para a barragem ficar perene o ano inteiro”, afirmou.
Fauna e flora diversificada
Mais de 100 espécies de frutas e pelo menos 20 animais da Mata Atlântica existem na propriedade de Gilson Mansur, em Santa Teresa, no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
De acordo com o produtor, a propriedade conta com mais de cem variedades de frutas e 20 espécies nativas da Mata Atlântica. Os animais – que não eram mais vistos – voltaram a aparecer.
“O quati, o macaco-bugio, a jaguatirica, a capivara, os marrecos silvestres… Esses animais não existiam mais aqui e voltaram a fazer o habitat neste lugar. Eles vêm, procriaram e vão embora”, disse o produtor.
O produtor destacou ainda que o paraíso ambiental conta com centenas de pássaros. “Você chega aqui na mata e é uma sinfonia”, comentou.
Mas o produtor também destacou que tem outra meta: ver um bicho-preguiça na propriedade.
“Temos aqui a árvore favorita do bicho-preguiça, se Deus quiser a preguiça vai voltar a habitar aqui”, brincou.
Árvore favotira do bicho-preguiça está a espera do morador na propriedade de Gilson Mansur, em Santa Teresa, no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
A árvore do bicho-preguiça é um embaúba, espécie pertence ao estrato das plantas pioneiras da Mata Atlântica. Na propriedade do Gilson, ela está à espera do morador.
Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo
Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo

Veja também  Assista ao Bahia Meio Dia

Powered by WPeMatico

Origem da Noticia
https://g1.globo.com/es/espirito-santo/sul-es/noticia/2024/05/16/dinheiro-nao-e-tudo-na-vida-produtor-transforma-regiao-devastada-em-paraiso-ambiental-no-es.ghtml
Autor: {authorlink}

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: