Unicentro tem 30 indígenas matriculados em seus cursos de graduação


Eles frequentam os cursos de Administração, Arte, Enfermagem, História, Medicina, Pedagogia e Psicologia “A valorização da nossa identidade, dos povos tradicionais, de estarem em uma universidade é fruto da luta de nós, indígenas, de estar nas universidades”. A avaliação sobre a importância da ocupação do ensino superior por integrantes dos povos tradicionais é da Jociele Luiz. Ela é da etnia Kaingang, moradora da terra indígena de Mangueirinha e acadêmica do curso de Pedagogia, no câmpus avançado de Chopinzinho da Unicentro. A estudante ingressou no ensino superior por meio do Vestibular para os Povos Indígenas no Paraná e é, hoje, um exemplo do crescimento da representatividade dos povos indígenas no ambiente acadêmico, atuando inclusive como representante dos discentes indígenas na universidade.
A formação da Jociele começou ainda dentro da aldeia, com os primeiros anos escolares sendo orientados por professores indígenas. O contato com o estudo fora da comunidade veio cedo – a partir da quinta série do ensino fundamental. Período em que os desafios já se apresentavam na forma de exclusão, preconceito, na falta de acolhimento e na dificuldade com a língua escrita e falada fora da comunidade de origem. Obstáculos que, aos poucos e com o apoio da família, foram transpostos e não tiraram de Jociele a vontade de perseguir um diploma universitário. Hoje, venceu os desafios e ocupa com orgulho seu espaço nas salas de aula da Unicentro.
Jociele é aluna do curso de Pedagogia Indígena, uma iniciativa ímpar da Unicentro
Arquivo pessoal
“Acredito que, ao longo desses anos, a gente conseguiu construir e desconstruir algumas coisas da nossa vivência como estudante de Pedagogia, como pessoa, como indígenas. Todos os dias, a gente precisa lutar para que esses espaços sejam ocupados por nós – não só no curso de Pedagogia, mas em todos os espaços. Vamos estar ali sempre. Para nós é uma conquista enorme”, reforça.
O Paraná é pioneiro na implantação de ações afirmativas educacionais voltadas aos povos tradicionais. São essas políticas públicas que contribuem para ampliar a presença da população indígena nas universidades. De acordo com dados da Comissão Universidade para os Índios do Paraná (Cuia), até o final de 2022, o estado contava com um total de 240 acadêmicos declarados indígenas, distribuídos entre as instituições de ensino superior paranaenses.
Na Unicentro, atualmente, são 30 estudantes indígenas matriculados, representando, principalmente, as etnias Kaingang e Guarani. Entre os cursos mais procurados estão Pedagogia, com 12 estudantes; e Administração, com nove. Além desses, há quatro acadêmicos matriculados no curso de História; duas cursando Medicina; uma fazendo Enfermagem; um matriculado em Arte; e mais uma cursando Psicologia.
O kaingang Poty é aluno do curso de Administração
Arquivo pessoal
Potestino Gabriel, Kaingang da terra indígena de Chapecozinho, cursa Administração no polo da Unicentro em Mangueirinha. Semelhante à maioria dos estudantes indígenas, cursou os primeiros anos escolares dentro da aldeia de origem. Depois de crescido, o incentivo para ultrapassar os muros da comunidade e ingressar em um curso superior veio do exemplo familiar – da mãe, formada em Pedagogia; do pai, formado em Direito; e dos tios, que também exibem com orgulho um diploma de graduação. Para ele, a formação superior é uma conquista coletiva. “Isso mostra cada vez mais o que podemos, os lugares que podemos ocupar e até onde podemos chegar. A universidade, para mim, representa um lugar de transformação, de poder mudar não só a minha realidade, mas a realidade de toda uma comunidade a qual eu estou representando. Eu vejo a universidade como uma porta que se abriu para que a gente possa mudar a nossa realidade e também dar visibilidade para as nossas causas”, diz Potestino.
Entre os fatores que facilitam a inserção e a permanência desses alunos na instituição, pontua a presidente da Comissão Universidade para os Índios, a Cuia, na Unicentro, professora Sandra Mara Mattos, estão o vestibular e um curso de Pedagogia voltados exclusivamente para os indígenas.Ela também destaca o suporte dos professores durante o tempo de curso e o auxílio financeiro que cada estudante recebe. “O professor que está no dia a dia. Então, ele sabe quais são as dificuldades, o que acontece no curso, tem um melhor trânsito para conversar com seus pares no departamento e levar as questões. Uma política de permanência extremamente importante é essa. Também a bolsa que eles recebem, que facilita com que eles continuem na universidade”, detalha.
O aumento do número de indígenas na academia está alicerçado no suporte dado pela universidade e pelas políticas públicas, mas também no esforço individual de cada estudante. Se, por um lado, o acesso foi facilitado, por outro, a permanência desses acadêmicos nos cursos ainda é um desafio. Afinal, para cursar o ensino superior, os indígenas enfrentam uma série de obstáculos diários – preconceito, adaptação cultural, deslocamento, saudade da família e dificuldades financeiras são alguns exemplos. Adversidade que, avalia a acadêmica de Psicologia, Danieli Finhgre Felix, muitas vezes, desestimulam a continuidade da formação. “Você acredita que aquele ambiente não é para você. Se fosse para você, teriam mais indígenas. Uma das principais dificuldades, para mim, foi na Psicologia em si, porque a psicologia ainda é muito pautada no eurocentrismo branco e em teorias que só estudam pessoas não-indígenas. Então, você estudar algo que exclui totalmente a sua existência acaba te desestimulando. Então, eu fui criando estratégias para lidar com isso”, recorda.
Danieli cursa Psicologia no câmpus de Irati
Arquivo pessoal
Danieli é mais uma representante da etnia Kaingang, da terra indígena de Rio das Cobras, que veio ocupar seu lugar nas salas de aula da Unicentro por meio do Vestibular dos Povos Indígenas do Paraná. Ela cresceu e estudou na aldeia, frequentando uma escola bilíngue com professores indígenas e não-indígenas. O anseio de sair do seu território de origem, conhecer outros lugares e outras formas de saber sempre foi fomentado pela mãe, que é professora e a ajudou na preparação para que conseguisse ingressar em um curso superior.
O desejo de obter uma formação ainda pouco escolhida pelos indígenas somado à percepção que tinha sobre as demandas da aldeia em relação à saúde mental levaram a estudante a optar pela graduação em Psicologia. Hoje, mais perto de ter o diploma nas mãos, ela percebe que, apesar de ainda não estar no quantitativo ideal, os espaços acadêmicos e profissionais estão sendo ocupados por diferentes povos tradicionais. “A universidade, para mim, no começo, era o lugar que te exclui, de todas as formas era segregação. Hoje, eu sinto que a universidade é o lugar onde eu consigo me manifestar, onde eu consigo fazer denúncias por meio de pesquisas, por meio de apresentação de trabalho. Hoje, a universidade, para mim, é uma porta de entrada onde existem muitas trocas de conhecimento”, fala a estudante sobre sua mudança de percepção nos últimos anos.
A inserção dos indígenas no ensino superior é comemorada por João Paulo
Arquivo pessoal
A mudança no cenário de representatividade dos povos indígenas na universidade também é lembrada pelo estudante de Administração João Paulo Anastácio. O acadêmico é da etnia Kaingang, da terra indígena de Mangueirinha, e passou os primeiros anos escolares dentro da aldeia. Incentivado pela mãe, quis trilhar o caminho do ensino superior ainda que a trajetória pudesse apresentar obstáculos. “Acredito que seja uma conquista chegar ao nível superior porque, quando você analisa os nossos pais ou os nossos avós, eles não tiveram esse privilégio que a gente tem hoje de ter acesso ao estudo. Só a gente sabe os perrengues que passamos para poder chegar a esse momento, e temos que aprender a superá-los, aprender a lidar com eles no decorrer do curso. Vai amadurecendo, vai direcionando aonde queremos seguir. Eu vejo a universidade como uma conquista”.
Conquista para o estudante e também para a universidade. Um caminho de mão dupla que, como enfatiza o reitor da Unicentro, professor Fábio Hernandes, é reflexo da luta constante da Unicentro em busca de oferecer oportunidades que abranjam todos os povos. “A universidade é esse ambiente plural. Os indígenas estão presentes na nossa região. Então, eles precisam estar presentes também na universidade. Eles estão em um ambiente que também é deles. A nossa Unicentro é um patrimônio do Paraná e é um patrimônio de todos”, finaliza.

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https://g1.globo.com/pr/parana/especial-publicitario/universidade-estadual-do-centro-oeste/ensino-superior-publico-gratuito-e-de-qualidade/noticia/2023/07/07/unicentro-tem-30-indigenas-matriculados-em-seus-cursos-de-graduacao.ghtml
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