Visitando os estádios de Tokyo Verdy e Kashima Antlers


Times tradicionais que fizeram a final da primeira J.League sonham em voltar aos tempos de glória
Continuando a viagem pelos estádios japoneses, neste fim de semana fui ver de perto dois dos times mais tradicionais do Japão. Na sexta-feira o Tokyo Verdy, que está de volta à J1 depois de 15 anos na segunda divisão, e no sábado o Kashima Antlers, que quer acabar com o maior jejum de títulos da sua história e voltar a ser campeão.
TOKYO VERDY: Todo jogo é um drama
O time que já foi por muitos anos o maior do Japão finalmente retornou à elite e deu o primeiro passo para se recuperar, mas ainda está longe do que era nos tempos de glória. O próximo passo é se manter na J1 e a torcida está confiante que é possível.
O Ajinomoto Stadium fica em Chofu, na zona oeste de Tóquio. De trem, demorou 1h15 para chegar da estação Moto-Yawata, em Ichikawa-shi, onde eu estava, até a estação Tobitakyu, a mais perto do estádio. Partindo de Shinjuku, no centro de Tóquio, dá para chegar em meia hora. Saindo do trem, você logo percebe que a estação é dividida entre Tokyo Verdy e FC Tokyo. De um lado, bandeiras do Verdy. De outro, bandeiras do FCT. Como era dia de jogo do Verdy, o estádio estava todo decorado de verde.
Bandeiras na estação Tobitakyu são divididas entre os rivais: de um lado Tokyo Verdy, de outro FC Tokyo
Tiago Bontempo
Eu estava preocupado com o ingresso porque não consegui comprar antecipado, nem online (por algum motivo desconhecido o pagamento com cartão de crédito não funcionou, além de que eu não tenho acesso às outras formas de pagamento exclusivas daqui, o d-Barai e o Rakuten Pay) nem na loja de conveniência (na máquina só era possível comprar ingressos para jogos do Albirex Niigata e do Consadole Sapporo, apesar de que eu tinha conseguido comprar lá para o jogo do Omiya Ardija na J3 semana passada). Mas estavam vendendo no dia do jogo. A diferença é que comprar lá no dia, direto na bilheteria do estádio, sai mais caro. O ingresso mais barato (inteira), para o setor atrás do gol, normalmente custa 2.200 ienes (R$ 73), mas no dia do jogo custou 2.900 ienes (R$ 96). Para os assentos na lateral do campo, os preços variam de 3.900 ienes (R$ 129) a 6.300 ienes (R$ 208).
Em dia de jogo do Tokyo Verdy, o Ajinomoto Stadium fica decorado com os símbolos do Verdy
Tiago Bontempo
Como é padrão em qualquer estádio de futebol no Japão, vimos bandeiras do Brasil no meio da torcida (todos os times da J1 têm um ou mais jogadores brasileiros). A maior surpresa foi perceber que a torcida do Verdy canta uma versão de Brasília Amarela, música dos Mamonas Assassinas que provavelmente foi inspirada em uma versão cantada pela torcida do Internacional.
Também encontrei lá o Zenryoku-san, torcedor do Verdy que ficou famoso pelos gestos exagerados que faz na hora de torcer. Ele literalmente torce com toda a força (zenryoku em japonês significa “toda a força”). E de fato você não vai achar nenhum torcedor mais animado. Ele ficou feliz em saber que o Verdy é um dos times japoneses mais conhecidos no Brasil e disse, em um japonês bem simples para facilitar minha compreensão, que começou a torcer porque “no FC Tokyo tem muita gente. No Verdy tem poucos. Aqui é minha família.”
O Ajinomoto Stadium minutos antes do jogo entre Tokyo Verdy e Kyoto Sanga
Tiago Bontempo
A expectativa era de o Verdy finalmente conseguir sua primeira vitória na temporada. O time vinha jogando bem, mas tendo azar no final dos jogos. Nos três primeiros, sofreu gol nos últimos minutos ou acréscimos. No último, empatou nos acréscimos. Tinha dois empates e duas derrotas. O Kyoto Sanga também estava na parte de baixo da tabela, com apenas uma vitória, um empate e duas derrotas. Mas o plano do Verdy foi logo por água abaixo. Com dois minutos, Yuta Toyokawa saiu na cara do gol e fez 1×0. O lance foi anulado pelo VAR, que assinalou impedimento, mas só dava Kyoto e logo Toyokawa abriu o placar com um foguete de fora da área. Um golaço, mas vacilo da defesa verde que deu ao adversário todo o tempo e espaço para dominar, ajeitar e chutar. Pouco depois, Taichi Hara ampliou e o jogo continuava com domínio dos visitantes, que pareciam mais pertos do terceiro gol do que o Verdy de diminuir. Meu amigo Victor, que foi comigo e estava pela primeira vez em um estádio de futebol no Japão, ficou impressionado com o goleiro Matheus Vidotto (o único brasileiro do Verdy), que mostrava segurança nos momentos de maior pressão do Kyoto. Koki Morita também aparecia bem na cobertura defensiva.
O Verdy só acordou depois do intervalo, quando deixou de lado sua usual estratégia defensiva e partiu para o ataque. O time ia ficando cada vez mais ofensivo, enquanto o Kyoto se retraía para segurar o resultado. Mais ou menos na metade do segundo tempo, o pessoal atrás do gol começou a cantar “Come on Verdy! Come on Verdy!” pulando, assobiando e fazendo gestos com os braços chamando o time para o gol onde agora atacava. E continuaram com a mesma música, sem parar por nenhum instante, até o apito final. A gente ficou se perguntando se seria alguma superstição não parar a música até saírem os gols que o time precisava. De qualquer forma, deu certo, pois Itsuki Someno marcou duas vezes, aos 80′ e aos 90’+3, e salvou um pontinho para o Verdy. A festa após o gol de empate foi incrível. Ainda não foi dessa vez que veio a primeira vitória, mas no fim das contas o 2×2 teve um sabor de vitória e foi suficiente para tirar a equipe da zona de rebaixamento. Visando o objetivo de permanecer na primeira divisão, um resultado aceitável.
A saída do estádio
Tiago Bontempo
KASHIMA ANTLERS: O “espírito de Zico” está presente
“O Zico construiu o Kashima.” Um torcedor que estava ao meu lado, cantando e gritando o jogo todo, de repente se perdeu nas palavras quando perguntei sobre o Zico e, com um sorriso tímido, resumiu tudo na frase acima. Ao visitar a cidade de Kashima, passar pelo CT do Antlers e assistir a um jogo no Kashima Soccer Stadium, você só pode se impressionar mais ainda com o tamanho do feito do Galinho. Ele disse em uma entrevista: “No Kashima, tirando presidente, eu já fiz de tudo.” O que não é exagero. Zico foi o principal responsável em transformar um time que jogava na segunda divisão amadora, que tinha funcionários de uma fábrica como jogadores e treinava em um campo de areia com terra no maior campeão do país.
Até agora eu só tinha ido a estádios na região metropolitana de Tóquio, lugares com muita população e com acesso fácil de transporte público. Kashima foi totalmente diferente porque fica no interior. É uma cidade de apenas 65 mil habitantes que beira o Oceano Pacífico. Só é possível ir de trem a partir de Mito, a capital de Ibaraki, que fica mais para o norte. Ou seja, saindo de Tóquio daria uma volta enorme e levaria quatro horas e meia no mínimo. Em dia de jogo, tem ônibus que saem da estação Tóquio e vão direto para o estádio. Leva duas horas. Para muitos torcedores, a melhor opção é ir de carro.
A sede do Kashima Antlers
Tiago Bontempo
Fui com meu amigo Aires Yukio, torcedor do Antlers que mora em Koga, Ibaraki. Encontrei ele às 8h da manhã na estação Kashiwa (em Chiba, perto de onde joga o Reysol) e de lá foram duas horas de carro até chegar em Kashima. Primeiro passamos na sede do clube, onde também fica o centro de treinamento e uma loja oficial. Tem um museu, mas não abre em dia de jogo. Os jogadores não relacionados para a partida do dia estavam lá treinando, observados por muitos torcedores na pequena arquibancada lateral. É um local aberto onde qualquer um pode ir. Geralmente os treinos são abertos. Quando querem fazer um treino fechado, apenas pedem aos torcedores para não irem. E eles respeitam e não vão. Mesmo quando a fase é ruim, não vai aparecer nenhum torcedor para cobrar os jogadores. A cobrança é só no estádio. “O Kashima Antlers, o maior campeão do Japão, é só isso. Três campos e a sede”, brincou o Aires. É nesse momento que você se impressiona em como um clube assim conseguiu se tornar um gigante no futebol japonês.
Ao lado da sede, tem uma estátua do mascote do time, Shikao
Tiago Bontempo
Do CT até o estádio ainda é longe, cerca de sete quilômetros. Tem que ir de carro. Chegando ao Kashima Soccer Stadium, você se impressiona de novo. Pelas fotos, o estádio não parecia tão grande. Mas é um estádio de Copa do Mundo, afinal. E o primeiro da J.League construído exclusivamente para futebol. O jogo estava marcado para começar às 15h03 (é normal ter esses horários não exatos) e os portões costumam abrir três horas antes. Chegamos lá um pouco antes do meio-dia e já tinha uma multidão em fila esperando para entrar.
Chegando no Kashima Soccer Stadium
Tiago Bontempo
O DJ do estádio é brasileiro e começa a apresentação com “Minasan, beleza, beleza, beleza?” Quando vai anunciar o público presente ele fala “obrigado”. Quando tem gol, fala “golaço”. Também toca músicas com ritmos nada japoneses como “Samba de Janeiro”. O prato típico do estádio e que forma de longe a maior fila para comprar é o espetinho de carne de porco, o “hamuyaki”. Eu nem como muito carne de porco, mas achei gostoso.
Espetinho de porco (hamuyaki), o prato típico do Kashima Soccer Stadium
Tiago Bontempo
Ao lado da barraca do espetinho fica o ponto mais famoso do estádio, a estátua do Zico. Ao redor do monumento tem uma “calçada da fama” com os pés do próprio Galinho e de vários outros jogadores da década de 1990. A estátua é em tamanho real e um trabalho de arte incrível.
A estátua de Zico em frente ao Kashima Soccer Stadium
Tiago Bontempo
Atravessando a rua, tem uma loja oficial montada em um estande provisório com várias barracas emendadas (dentro do estádio tem outra loja, só que bem menor). Muitos produtos são personalizados com os nomes e números dos jogadores e a maioria são do camisa 10 Gaku Shibasaki, que ainda não jogou neste ano (está lesionado desde a pré-temporada). A loja fica cheia, com filas enormes no caixa, mas as filas andam bem rápido. Reparei que não fica ninguém vigiando, então não seria difícil para algum malandro colocar um chaveiro no bolso e sair sem pagar. Mas parece que fazem tudo na confiança por aqui. Definitivamente isso não funcionaria no Brasil. Outra coisa que não funcionaria de jeito nenhum em estádios brasileiros é o costume de deixar algum pertence no seu assento, como uma mochila, uma bolsa ou uma toalha, para marcar o lugar e depois sair para comer, fazer compras e encontrar amigos do lado de fora.
Nos estádios do Japão, nas áreas onde o assento é livre as pessoas chegam mais cedo, deixam algum objeto no banco para marcar o lugar e depois saem sem nenhuma preocupação, sabendo que ninguém vai mexer ou roubar
Tiago Bontempo
Falando em encontrar amigos, o Aires me apresentou a um brasileiro que está em todo jogo em Kashima e já virou uma espécie de torcedor-símbolo: o Sr. Fujishima, que se destaca por se vestir todo de amarelo em um mar de vermelho e estar sempre com uma bandeira do Brasil cheia de autógrafos de jogadores e até do Zico. Ele tem 70 anos, mora no Japão há mais de 30 e torce pelo Kashima há 15 anos, desde a época do tricampeonato com o Oswaldo de Oliveira. “O Marquinhos estava sempre passando aqui de Ferrari, parava para conversar com a gente, às vezes até saía do carro”, ele recorda. O mais incrível é que eu descobri que o Fujishima-san morou por 10 anos em Carmo do Paranaíba-MG, a cidade onde nasci. Inacreditável que a gente saiu de uma cidade pequena no interior do Brasil para se encontrar em uma cidade pequena no interior do Japão, do outro lado do mundo. Realmente o mundo é pequeno…
Com o Fujishima-san, um brasileiro que virou um torcedor-símbolo do Kashima Antlers
Tiago Bontempo
O Fujishima-san montou um grupo de torcida chamado “Família Fujishima” que só tem ele e o Aires de brasileiros. Todos os outros são japoneses. Segundo ele, duas fileiras ali atrás do gol, junto com a In-Fight, a principal organizada do Antlers, são todas dele. Ele cuida de tudo para quando alguém não pode ir, repassar o ingresso para outra pessoa. E assim ele arrumou o ingresso para mim e para o Aires, que ia pela primeira vez depois de dois anos. Antes do jogo, o pessoal se reúne perto das escadas de acesso às arquibancadas e fazem um piquenique. Almoçar no estádio é um evento que faz parte da experiência do jogo. “É a única diversão que a gente tem por aqui”, contou o Fujishima-san.
Às vezes as conversas misturam português com japonês. Por causa da influência brasileira, os japoneses que frequentam o Kashima Soccer Stadium conhecem várias palavras em português. Quando o Fujishima-san me apresentou a uma senhora conhecida dele que passava por lá, ela disse para mim: “Bonito, né? Gatinho.” [inserir um emoji de cara envergonhada aqui] A maioria dos torcedores que vi por lá não é de Kashima, mas de cidades próximas. Muitos trabalham como caminhoneiros ou motoristas. Pessoas mais simples, mas de sorriso fácil, um perfil um pouco diferente dos japoneses de Tóquio, conhecidos por serem um pouco mais “fechados”. De certa forma é um pouco parecido com a diferença que vejo no Brasil entre pessoas de São Paulo, capital e do interior.
Mesmo na fileira mais alta do estádio, a visão do campo ainda é boa
Tiago Bontempo
Quando o jogo começa, uma diferença da torcida do Kashima para a de outros times japoneses é que eles param o canto que estiverem fazendo para vaiar quando o time adversário entra no campo de ataque e quando o goleiro adversário tem a posse de bola com os pés. Ainda não tinha visto uma torcida que vaia o adversário além da do Urawa Reds.
A visão de setor atrás do gol no Kashima Soccer Stadium
Tiago Bontempo
O jogo do dia, entre Kashima Antlers e Júbilo Iwata, foi promovido como um “Clássico” (com a palavra em português mesmo) por causa da forte rivalidade que já existiu no período entre 1996 e 2002, quando o campeão da J.League foi sempre ou Antlers ou Júbilo. O time de Shizuoka, porém, entrou em decadência desde então e tem alternado entre brigar pelo acesso na J2 e ser rebaixado na J1 nos últimos anos. Até por isso não é mais um jogo de tanto apelo para o torcedor de Kashima. Ultimamente a rivalidade que ficou mais forte foi a com o Kawasaki Frontale.
Card promocional do “Clássico” entre Kashima Antlers e Júbilo Iwata
Tiago Bontempo
Ainda assim, o Júbilo deu bastante trabalho e poderia ter surpreendido, não fosse pelo goleiro Tomoki Hayakawa, eleito melhor em campo, e por outras chances perdidas que passaram perto. Um gol de pênalti de Yuma Suzuki decidiu a vitória por 1×0, mas o desempenho não foi de time que briga por título. A falta de opções no elenco para a defesa, principalmente na zaga, pode pesar em um campeonato longo. Veremos se o novo contratado, o volante sérvio Radomir Milosavljević, que trabalhou junto com o atual técnico, Ranko Popović, no Vojvodina, será capaz de preencher essa lacuna do elenco. Raiko, como será chamado no Japão, foi apresentado esta semana e assistiu ao jogo das tribunas. Pelo menos o outro sérvio indicado por Popović, o atacante Aleksandar Čavrić, já deixou uma impressão positiva nos primeiros jogos.
Antes do jogo, a torcida do Kashima faz um “aquecimento” com os cantos e bandeiras
Tiago Bontempo
Resultados da 5ª rodada da J1:
(17º) Tokyo Verdy 2×2 Kyoto Sanga (13º) (10.060)
(5º) Sanfrecce Hiroshima 1×1 Gamba Osaka (6º) (25.683)
(7º) Albirex Niigata 1×1 Kashiwa Reysol (9º) (20.359)
(3º) Vissel Kobe 6×1 Hokkaido Consadole Sapporo (20º) (17.374)
(4º) Kashima Antlers 1×0 Júbilo Iwata (18º) (21.069)
(8º) Urawa Reds 2×1 Avispa Fukuoka (16º) (37.826)
(1º) Machida Zelvia 3×1 Sagan Tosu (19º) (7.062)
(10º) Kawasaki Frontale 3×0 FC Tokyo (15º) (22.543)
(12º) Nagoya Grampus 2×1 Yokohama F-Marinos (11º) (31.844)
(2º) Cerezo Osaka 2×0 Shonan Bellmare (14º) (16.415)

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Origem da Noticia
https://ge.globo.com/blogs/futebol-no-japao/post/2024/03/31/visitando-os-estadios-de-tokyo-verdy-e-kashima-antlers.ghtml
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